Como podemos acabar com a tirania do presente na política? Entrevista com Pierre Rosanvallon

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01 Outubro 2026

Nossa época carece de futuro. Diante da crise climática e das tensões econômicas, sociais e geopolíticas, estadistas e cidadãos parecem ter desistido de planejar o futuro. Essa vitória do imediatismo é analisada pelo historiador e sociólogo Pierre Rosanvallon em seu último livro, La thirannie du présent (Seuil, 2026), o novo volume de sua série de reflexões sobre a “crise democrática” que nossas sociedades atravessam.

A entrevista é de Elisa Thévenet, publicada por Usbek & Rica, 29-09-2026. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em ‘A tirania do presente’, você constata que nossas sociedades deixaram de se preocupar com o longo prazo e as gerações futuras. Quando isso começou?

Podemos fazer retroceder essa desconexão à modernidade. A modernidade representa a ruptura do mundo dos direitos, da subjetividade e da humanidade. E essas rupturas ocorreram ao nos libertarmos das amarras do passado e das promessas do futuro incorporadas por religiões que antes ensinavam o sacrifício do presente. Os ritmos políticos e o próprio conceito de coesão social mudaram. Porque se os indivíduos se tornarem senhores do seu próprio futuro, poderão remodelá-lo.

Substituímos as instituições imutáveis e herdadas por instituições que podem ser perpetuamente questionadas. As Constituições dos 13 Estados estadunidenses (as primeiras constituições democráticas no sentido contemporâneo, nota do editor) previram, portanto, mandatos de um ano. E, durante a Revolução Francesa, o presidente da Assembleia Nacional era trocado semanalmente para enfatizar que a presidência era uma função e não uma instituição.

Será que a própria estrutura do nosso sistema político complica a nossa relação com o longo prazo?

A democracia é um regime do presente, e é crucial que assim permaneça, mas deve obedecer a vários ritmos: o das instituições, o da vontade geral, o da lei… Mas a vontade geral não pode ser reduzida simplesmente ao “capricho do momento” ao qual as eleições parecem estar sujeitas. Uma nação tem uma existência que faz parte de um contínuo, portanto, são necessários guardiões dessa continuidade.

Em 27 de setembro de 2026, pouco mais da metade das cadeiras do Senado foram renovadas por meio de sufrágio indireto. Ao descrever o estabelecimento da segunda câmara no alvorecer da Terceira República, você escreve: “Ambos os lados consideravam que um Senado desempenharia um papel moderador nos excessos do sufrágio universal, que constituiria um baluarte para canalizar a expressão da impaciência popular”. Podemos dizer que o Senado foi concebido como o órgão do planejamento a longo prazo?

Há pouco tempo, fui convidado por alunos do ensino médio para conversar com Gérard Larcher, que lhes deu uma breve visão geral do que é o Senado. Ele lhes disse: “Vejam bem, o Senado é como uma xícara de chá: quando o chá está muito quente, você o transfere para outra xícara para esfriá-lo. Bem, o Senado é a xícara que esfria”. “Há alguma verdade nessa definição: o Senado é o guardião de uma escala temporal diferente da Assembleia Nacional (a câmara é renovada por 172.600 eleitores, metade dos quais é substituída a cada três anos para um mandato de seis anos, um sistema que permite à câmara garantir a estabilidade das instituições, nota do editor), mas para Gérard Larcher, esse é o seu único horizonte. E isso é problemático: o Senado não deve se tornar o campeão da falta de ação.

Para conciliar urgência e longo prazo, o senhor nos convida em seu livro a examinar nossa condição de terranos, além da de indivíduos e cidadãos. O que esse novo rótulo permitiria?

Os procedimentos institucionais para estabelecer o longo prazo são essenciais, mas não são suficientes. Os indivíduos também precisam ter internalizado essa prática de planejamento futuro. Porque você pode tomar todas as decisões que quiser sobre os comportamentos a serem adotados para reduzir o consumo de energia, por exemplo, mesmo assim os resultados serão extremamente ruins se eles não forem internalizados pelos cidadãos.

Na democracia, as decisões institucionais e o comportamento individual devem estar alinhados. Em regimes totalitários, onde o conceito de indivíduo não existe, o problema não se coloca – a vontade da China torna-se a vontade do povo chinês, porque este é forçado a conformar-se; não há diálogo social. Mas, em uma democracia, esse alinhamento é essencial.

E como criamos as condições para esse alinhamento?

O mundo moderno era inicialmente um mundo do indivíduo. O que permitiu que o conceito de cidadão se consolidasse foi o fato de ter emergido gradualmente como uma forma de proteção. Isso não aconteceu de forma repentina. Se deu devido a guerras, lutas de classes e muitas outras provações que demonstraram a importância dessa segunda dimensão.

Você cita Cynthia Fleury na introdução, que essencialmente escreve que, enquanto não “batermos no muro”, não seremos capazes de nos “colocar a caminho”. Pode-se pensar que, entre o retorno da guerra à Europa, a pandemia de Covid-19 e verões que chegam a 42°C, já fomos lançados à realidade em velocidade vertiginosa. E, no entanto, nada parece realmente mudar…

Edgar Morin disse algo semelhante: o “nós” prevalece sobre o “eu” quando enfrentamos uma provação terrível. Mas os eventos atuais mostram que essa narrativa do muro não é totalmente precisa. Não acredito em um caminho de Damasco para as mudanças climáticas, na lógica da conversão pela brutalidade dos acontecimentos.

É por isso que estou desenvolvendo o conceito de exercícios democráticos. Precisamos implementar experimentos, como um “parlamento das gerações”, que poderia ser modelado a partir de convenções cidadãs e nos permitiria abordar diretamente a questão da justiça intergeracional e compartilhar o conhecimento.

As teorias da justiça (que são teorias da distribuição) são geralmente concebidas em termos de ricos contra pobres. Essa questão deve ser ampliada para as relações entre gerações. Refletir sobre o que constitui a justiça entre gerações também poderia ter a vantagem de atrair as gerações mais jovens de volta à política. Porque, atualmente, os eleitores mais assíduos são também os mais idosos. Enquanto que se poderia pensar que deveria ser o contrário: ao completar 18 anos hoje, você terá que viver a vida inteira com as decisões tomadas pelos governos.

Que mandato exato daríamos a esses “parlamentos das gerações”?

Precisamos de assembleias permanentes das gerações futuras que desenvolvam uma abordagem mais ponderada para o futuro, que permitam a coexistência de vozes divergentes. Mas essas experiências não devem se tornar instituições. As instituições diminuem o ritmo, acalmam as mentes, mas elas devem permanecer despertas.

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